
O Brasil enfrenta uma crise silenciosa e estrutural na saúde mental. De acordo com o estudo intitulado Tendência na prevalência de sintomas depressivos no Brasil: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde, de 2013 e 2019, a prevalência de depressão cresceu quase 40% em poucos anos. Atualmente, em São Paulo, cerca de 30% dos adultos convivem com algum transtorno mental, no Brasil, de acordo com artigo publicado na revista Debates em Psiquiatria, da Associação Brasileira de Psiquiatria ( ABP), cerca de 18 milhões de pessoas convivem com transtornos mentais graves, e a taxa de suicídio no país segue uma trajetória de crescimento que contrasta com a redução global. Ademais, a pesquisa Poor access to health services for depression treatment in Brazil, tendo como base os dados da Pesquisa Nacional de Saúde (2019/2020), estimou que 14,9% das pessoas com depressão relataram “acesso precário” a serviços de saúde para tratamento.
De acordo com a psicóloga, doutora em ciências e especialista em neuropsicologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), casos recentes envolvendo crianças com dificuldades emocionais evidenciam a necessidade de ampliar o acesso a acompanhamento adequado e políticas públicas voltadas à saúde mental. Segundo ela, "situações desse tipo reforçam a importância de redes de cuidado estruturadas e de atenção contínua às famílias".
Mulheres que desempenham múltiplas responsabilidades
O estudo publicado na Revista Textos e Contexto, Vulnerabilidade social e transtornos mentais demonstra que as mulheres são desproporcionalmente afetadas por transtornos mentais, especialmente depressão e ansiedade. A Organização Mundial da Saúde aponta que elas apresentam o dobro da prevalência ao longo da vida, resultado da sobrecarga de cuidado, desigualdade social, violência de gênero e múltiplas jornadas.
No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde revela que 14,7% das mulheres já receberam diagnóstico de depressão, contra 5,1% dos homens. Um outro estudo, desta vez publicado na APA PsycNet, também demonstra oscilações neurobiológicas que aumentam a sensibilidade feminina ao estresse. “Não se trata de fragilidade, mas de fatores reais e documentados. As mulheres carregam múltiplas jornadas e ainda enfrentam o machismo estrutural que invalida suas emoções. Isso as expõe a maior vulnerabilidade psicológica, mas também revela sua força e coragem ao buscar ajuda”, destaca Dra. Paula.
Responsabilidades de cuidado assumidas por mulheres permanecem constantes
Estudo publicado pela Sage Journals afirma que muitas mulheres lideram o cuidado dos filhos, da casa, da rotina escolar e das demandas emocionais da família, acumulando o chamado trabalho emocional e a carga mental. Além disso, pesquisa relacionada afirma que mulheres que sustentam financeiramente o lar, exercendo maternidade, gestão doméstica e vigilância contínua são reflexo das desigualdades de gênero.
Já um artigo também publicado na Sage Journals afirma que o machismo estrutural desqualifica suas emoções, em práticas descritas como gaslighting de gênero. O autor P. Bourdieu considera tais ações como dominação simbólica e de acordo com uma pesquisa publicada na Feminism & Psychology, expressões como “você é louca” ou “isso é drama” não são comentários isolados, mas marcas de uma cultura que historicamente invalida a experiência emocional feminina. “O sofrimento psíquico feminino não é sinal de fraqueza, mas de coragem. As mulheres são as que mais procuram atendimento psicológico e psiquiátrico, demonstrando maior literacia emocional e menor estigma diante do cuidado”, reforça a especialista.
De acordo com a especialista, episódios envolvendo crianças com necessidades emocionais específicas demonstram a relevância de monitoramento, suporte profissional e integração entre serviços de assistência. Ela afirma que a forma como esses casos repercutem publicamente também evidencia a necessidade de aprimorar protocolos de prevenção, acolhimento e orientação às famílias.
Saúde mental para todos
A especialista pondera, afirmando que proteger a saúde mental significa proteger mulheres, crianças, homens, famílias e comunidades, e destaca que investir em saúde mental contribui para prevenir situações de risco e fortalecer redes de apoio. "Ampliar o acesso a serviços especializados e integrar diferentes setores de atendimento são medidas essenciais para aprimorar a proteção e o cuidado oferecidos à população", conclui.