
Cerca de 30% dos cursos de Medicina avaliados na primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica ( Enamed) obtiveram desempenho considerado insatisfatório pelo Ministério da Educação ( MEC). Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (19), em Brasília, pelo ministro da Educação, Camilo Santana, durante encontro que contou também com a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Ao todo, o exame avaliou 351 cursos em todo o país, com a participação de aproximadamente 89 mil estudantes.
Esta foi a primeira edição do Enamed, criado para medir o desempenho dos estudantes e a qualidade do ensino ofertado pelas instituições de formação médica. A avaliação passa a ser aplicada anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em parceria com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).
De acordo com o MEC, 107 cursos, o equivalente a 30,7% do total avaliado, ficaram abaixo do patamar mínimo de proficiência estabelecido. Parte dessas instituições poderá ser submetida a medidas regulatórias, como suspensão temporária da entrada de novos alunos, redução de vagas e restrições ao acesso a programas federais, a exemplo do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). As sanções, no entanto, não são automáticas e dependem da instauração de processos administrativos, com garantia de direito à ampla defesa.
O desempenho dos estudantes concluintes também ficou aquém das expectativas do Instituto. Dos cerca de 39 mil alunos próximos da formatura, 67% obtiveram resultado acima da média, classificação denominada pelo Inep como “resultado proficiente”, indicando domínio considerado suficiente para ingresso no mercado de trabalho. Para especialistas, o cenário reforça a discussão sobre a adoção do ProfiMed, exame de proficiência profissional aprovado pelo Senado no fim de 2025 e conhecido como a “OAB dos médicos”.
Para Raul Canal, presidente da Anadem(Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética), os resultados evidenciam desigualdades na formação médica. “A expansão acelerada dos cursos de Medicina, sem acompanhamento rigoroso e homogêneo da qualidade, gera disparidades claras nas formações acadêmicas. Esse cenário se reflete nos resultados de avaliações nacionais e reforça a importância de instrumentos permanentes de monitoramento da formação médica”, avalia.
Levantamentos recentes indicam que o Brasil já ultrapassou 50 mil vagas anuais em Medicina e se aproxima de 500 escolas médicas, com predominância de instituições privadas. Uma projeção da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) aponta que o país pode superar a marca de 1,2 milhão de médicos até 2030. “Quando a expansão do ensino ocorre em ritmo superior à capacidade de regulação e avaliação da qualidade dos cursos, o sistema de saúde absorve esse desequilíbrio. A primeira edição do Enamed expôs esse cenário de forma objetiva”, conclui Canal.