
Com 4,6 milhões de novos pequenos negócios abertos entre janeiro e novembro de 2025, o Brasil registrou o melhor desempenho da série histórica, segundo dados divulgados pela Agência Brasil com base em levantamento do Sebrae. O volume supera os 4,1 milhões de empresas criadas em 2024 e representa um crescimento de 19% no período. Os pequenos negócios responderam por 97% das empresas abertas no país, sendo 77% microempreendedores individuais (MEIs).
O número reforça o protagonismo do empreendedorismo na economia brasileira, especialmente nos setores de serviços e comércio. Mas, enquanto a abertura de empresas bate recordes, outro dado chama atenção: o ritmo de fechamento também permanece elevado.
De acordo com o Mapa de Empresas do Governo Federal , no primeiro quadrimestre de 2025 foram abertas 1.815.912 empresas e fechadas 973.330, resultando em um saldo positivo de 842.582 negócios. Ao final do período, o Brasil somava 23.205.843 empresas ativas.
O ambiente de formalização está mais ágil — o tempo médio de abertura foi de 21 horas no primeiro quadrimestre de 2025 — mas a facilidade para abrir não garante a permanência no mercado.
A sobrevivência ainda é o maior obstáculo
Os números de abertura ajudam a explicar o entusiasmo do cenário, mas os dados de longevidade empresarial revelam um quadro mais desafiador. Levantamento com base em estatísticas do Bureau of Labor Statistics (BLS), compilado pelo Commerce Institute , indica que 20,4% das empresas encerram atividades no primeiro ano. Em cinco anos, quase metade (49,4%) já fechou as portas. Em dez anos, 65,3% deixam de existir. Em média, apenas 34,7% sobrevivem após uma década.
Esses índices mostram que o risco não está apenas no momento da abertura, mas na incapacidade de sustentar o negócio ao longo do tempo. E as causas não são, majoritariamente, externas. Segundo o mesmo levantamento, 29% das empresas falham por falta de caixa, 18% enfrentam problemas relacionados a precificação e estrutura de custos e 17% não conseguem consolidar um modelo de negócio consistente.
Na prática, isso significa que a dificuldade não está em formalizar, mas em estruturar. Sem planejamento financeiro, controle de despesas, definição clara de margem e leitura periódica dos números, o empreendedor acaba tomando decisões reativas. O crescimento, quando ocorre, vem desorganizado. E, quando a receita oscila, o impacto é imediato no caixa.
O gargalo mudou: da formalização à gestão
Para especialistas, o cenário de 2026 exige uma mudança de mentalidade. Se nos últimos anos o desafio era simplificar a abertura de empresas, agora o foco passa a ser organização, controle financeiro e previsibilidade.
Rodrigo Schluchting, CEO da Ever Contábil — empresa que atua com contabilidade consultiva, estruturação financeira e apoio estratégico para micro e pequenos empresários — avalia que o Brasil vive uma nova fase do empreendedorismo.
“Hoje abrir empresa é rápido. O problema é manter. Muitos empresários começam pelo impulso ou pela necessidade, mas continuam operando sem visão clara de fluxo de caixa, sem separação entre pessoa física e jurídica e sem planejamento tributário. O crescimento exige método”, afirma.
Segundo ele, é comum encontrar negócios que faturam, mas não sabem exatamente quanto lucram. “Quando o empresário não acompanha indicadores simples, como margem, ponto de equilíbrio e custo fixo mensal, ele perde a capacidade de prever cenários. E quem não prevê, reage. E reagir custa caro.”
Caixa, precificação e impostos: os gargalos invisíveis
O aumento no número de MEIs — que representaram mais de 75% das novas empresas abertas no primeiro quadrimestre de 2025 — mostra que grande parte dos negócios nasce com estrutura enxuta e baixa complexidade jurídica. No entanto, à medida que evoluem, passam a enfrentar decisões mais sofisticadas, especialmente na área tributária e financeira.
Entre os principais gargalos apontados por especialistas estão:
- Falta de controle estruturado de receitas e despesas;
- Precificação baseada em percepção, e não em custo real;
- Desorganização fiscal e ausência de planejamento tributário;
- Mistura de finanças pessoais e empresariais;
- Crescimento sem provisão de impostos e reservas.
Rodrigo explica que muitos empreendedores veem a contabilidade apenas como obrigação fiscal. “Quando a contabilidade é tratada só como emissão de guias, o empresário perde a principal função dela: transformar números em decisões. Formalização não é só ter CNPJ. É entender o que aquele CNPJ está produzindo de resultado.”
2026: profissionalização como diferencial competitivo
Com quase 1 milhão de empresas encerrando atividades apenas nos quatro primeiros meses de 2025, especialistas apontam que o próximo passo do empreendedorismo brasileiro é a profissionalização da gestão.
Isso envolve práticas relativamente simples, mas frequentemente negligenciadas: organizar fluxo de caixa semanalmente, separar contas pessoais das empresariais, acompanhar mensalmente indicadores financeiros, provisionar impostos antes do vencimento, revisar precificação com base em custo real e manter reservas para períodos de oscilação.
Para Rodrigo Schluchting, o empresário precisa assumir um papel mais estratégico dentro do próprio negócio. “Empreender não pode ser apenas executar. É preciso olhar para os números com a mesma atenção que se olha para as vendas. Quando o empresário ativa esse modo mais estratégico, ele sai da sobrevivência diária e passa a construir previsibilidade.”
Se 2025 ficou marcado pelo recorde de abertura de pequenos negócios, 2026 tende a ser lembrado como o ano em que a sustentabilidade financeira entrou definitivamente na agenda do empreendedor brasileiro. Mais do que abrir empresas, o desafio agora é estruturá-las para durar.
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