
Transtornos mentais elevam afastamentos do trabalho no país
Dados do Ministério da Previdência Social indicam que os transtornos mentais — como depressão, ansiedade e burnout — já figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil, com crescimento contínuo nos últimos anos. No setor privado, a atualização da NR-1, ao incluir os riscos psicossociais como responsabilidade do empregador, acelerou uma mudança estrutural na forma de gerir pessoas. No setor público, embora a norma não seja obrigatória, o problema é real — e crescente.
Em ambientes do serviço público, onde os vínculos são duradouros e a pressão institucional é constante, o impacto é ainda mais sensível: equipes adoecidas permanecem, líderes sobrecarregados acumulam conflitos e a produtividade cai silenciosamente. É nesse contexto que surge a “Crerser Público”, uma das iniciativas do país voltadas a traduzir evidências científicas e boas práticas de gestão de pessoas para a realidade da administração pública.À frente desse projeto, Daniella Salomão, procuradora municipal e especialista em Liderança Pública, com atuação na formação de gestores, pontua que “com 27 anos de vivência no serviço público, atuação direta com gestores e equipes e histórico consolidado na capacitação de lideranças públicas em todo o país, ressalto que essa combinação confere à Crerser Público não apenas legitimidade técnica, mas autoridade institucional para dialogar com o futuro da administração pública brasileira”.Para Daniella Salomão, “a maioria dos gestores assume funções de liderança sem preparo para desenvolver pessoas, lidar com conflitos emocionais ou sustentar equipes sob pressão contínua. O resultado é um paradoxo: cargos estáveis, mas ambientes instáveis do ponto de vista emocional e relacional”.Ainda segundo a procuradora Municipal, “mais do que orientar equipes no presente, a liderança pública contemporânea é chamada a enxergar além do imediato, realizando uma leitura sistêmica e preditiva do contexto em que atua. Isso implica compreender as transformações do mundo do trabalho, os impactos econômicos, sociais e institucionais sobre o serviço público, bem como antecipar riscos, demandas e tensões antes que se convertam em crise”.Estudos conduzidos pelo pesquisador Wilmar Schaufeli, reconhecido internacionalmente por suas pesquisas sobre engajamento no trabalho, demonstram que líderes que realizam diálogos estruturados sobre carreira e desenvolvimento aumentam em até três vezes o nível de engajamento de suas equipes. Outros levantamentos, como os realizados por consultorias globais e centros de pesquisa em gestão de pessoas, apontam que mais de 70% da variação no engajamento está diretamente associada à atuação da liderança imediata.Embora a chamada Reforma Administrativa ainda esteja em debate no Congresso Nacional, especialistas em gestão pública e dirigentes governamentais reconhecem que a transformação já acontece na prática, impulsionada por restrições fiscais, maior controle externo, pressão por indicadores de desempenho e expectativas crescentes da sociedade por eficiência e qualidade do gasto público.Crerser PúblicoA CrerSer Público atua no desenvolvimento de servidores públicos desde 2019. Contudo, em 2024 e 2025, seus programas impactaram diretamente quase 10 mil servidores públicos, em diferentes regiões do país, por meio de mentorias, capacitações, programas de liderança e protagonismo publico e palestras institucionais. Entre os resultados observados pelas gestões atendidas estão: aumento do engajamento das equipes; melhoria do clima organizacional; redução de conflitos internos; maior clareza de papel dos líderes; fortalecimento da liderança intermediária — considerada hoje o maior gargalo da gestão pública. “Quando o servidor entende seu papel, seu impacto e seu desenvolvimento, o resultado aparece. Engajamento não é discurso, é consequência de método”, afirma Daniella Salomão.Para finalizar, Daniella Salomão desataca que "na experiência de implementação de programas estruturados de desenvolvimento no setor público — que integram temas como carreira, liderança, saúde mental, comunicação e solução de conflitos — observa-se que os resultados tendem a emergir quando a abordagem é continuada e sistêmica. Iniciativas com duração entre seis e oito meses permitem atuar sobre fatores estruturais do ambiente institucional, favorecendo maior clareza de papéis, fortalecimento da liderança e melhoria da dinâmica das equipes, o que contribui para a sustentabilidade das mudanças ao longo do tempo".