
O consumo de energia no Brasil associado a datacenters deve saltar de 304 MW médios em 2026 para 3.457 MW em 2030, um crescimento superior a onze vezes em apenas quatro anos, o que poderá tensionar a infraestrutura de transmissão, conforme relatório do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) de abril de 2026.
A consultoria Thymos Energia estima que a explosão da inteligência artificial generativa no país promoverá investimentos em datacenters (centros de processamento de dados) que chegarão a R$ 60 bilhões até o final da década.
Segundo o relatório da ONS, CCEE e EPE, atualmente existem 22 contratos de datacenters assinados e 18 pareceres de acesso favoráveis emitidos, contra apenas 8 contratos no plano anterior, um avanço significativo na formalização de novos empreendimentos.
O dado mais crítico para a segurança energética brasileira é que 22 pedidos de acesso à rede com contratos assinados já foram protocolados junto ao ONS, dos quais 18 têm autorização de conexão. Nos próximos anos, a demanda nos estados de SP, CE, RN e BA pode tensionar a rede. Por isso, a EPE já incluiu em 2026 estudos para reforços na transmissão elétrica no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Independência energética e operacional: o dilema energético dos datacenters
O Uptime Institute criou os níveis de classificação Tier para datacenters há mais de 30 anos e, até hoje, continuam válidos. O dilema energético dos datacenters, porém, não se resolve com mais linhas de transmissão. Se a transmissão é o gargalo físico, a confiabilidade energética é o desafio operacional, sendo onde a tecnologia ajuda.
Conforme o executivo sênior Luiz Carlos Martins, gestor global de grandes projetos de engenharia, infraestrutura e operações de fusões e aquisições (M&A), “a infraestrutura crítica de datacenters Tier III e Tier IV exige operação ininterrupta 24 horas, 7 dias por semana e 365 dias por ano, com disponibilidade energética de 99,982% a 99,995%, conforme os padrões do Uptime Institute. A exigência que busca uma aproximação de 99,999% do tempo em disponibilidade, os ‘cinco noves’, impõe sistemas autônomos de energia que há décadas dependem de geradores a diesel ou gás natural”.
Gêmeos digitais (Digital Twins) em datacenters e geradores a gás natural
Marcos Dias, coordenador de projetos de P&D da FIRJAN SENAI SESI no Parque Tecnológico da FIRJAN e pesquisador em cidades inteligentes e soberania digital pelo PPGDR-FACE-UFG, alerta que “a expansão acelerada dos datacenters no Brasil, além de um desafio energético, também é uma questão estratégica de soberania digital integrada, envolvendo infraestrutura crítica, governança de dados e autonomia tecnológica nacional, e que, para atender ao requisito do Uptime Institute, os sistemas de backup, em especial os geradores a gás natural, precisam operar com confiabilidade absoluta no momento da contingência”.
Marcos Dias também esclarece que “os Gêmeos Digitais ( Digital Twins) representam uma mudança de paradigma. Ao criar réplicas virtuais sincronizadas em tempo real, tanto do datacenter quanto do gerador físico, é possível monitorar continuamente suas integridades, simular cenários de falha, prever desgastes e otimizar a operação, reduzindo a probabilidade de falhas inesperadas. Ressalvando-se, porém, que Digital Twins não substituem arquiteturas redundantes nem testes operacionais periódicos; eles as complementam”.
Fabiano Lovato Trindade, gerente-geral da unidade de gás de geradores da Leão Energia, relata que “em datacenters TIER III e TIER IV, classificações mais altas, geradores a diesel ou gás natural constituem a segunda camada de contingência. Os geradores entram em operação automaticamente segundos após a detecção de falha na rede primária, com autonomia que varia de 12 a 72 horas, dependendo da classificação e das exigências contratuais. A manutenção preditiva desses geradores é um dos pilares da continuidade operacional, com testes obrigatórios e reabastecimento contratado com o fornecedor”.
Incentivos fiscais para datacenters
Segundo o engenheiro e advogado Arnaldo Feitosa, MSc pelo Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), “o principal instrumento de política pública em discussão para atração de investimentos no setor é o projeto de lei n.º 278/2026, que propõe instituir o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter ( REDATA). O projeto ainda está em tramitação no Senado Federal”.
Tecnologias emergentes para resfriamento de datacenters
O economista e professor Diercio Ferreira, CEO da Techtalent Innovation, alerta que “datacenters podem consumir quantidades significativas de energia e água para resfriamento, o que pode ser incompatível com operar em regiões com crise hídrica. Uma das técnicas mais eficazes é o sistema de resfriamento de circuito fechado (closed-loop), que reutiliza a água internamente sem perda por evaporação”.
Além disso, Diercio Ferreira também cita tecnologias como o resfriamento por imersão ( immersion cooling), no qual os servidores são submersos em líquido dielétrico não condutivo, podendo reduzir o uso de água em até 50% e o consumo de energia em até 52%; o dry cooling (resfriamento a seco), que elimina completamente a necessidade de água para refrigeração, mas tem eficiência reduzida em climas quentes; e o free cooling como método auxiliar que utiliza ar externo quando as condições climáticas permitem uma solução viável em regiões de clima ameno ou em datacenters modulares no Sul do Brasil.