
A rápida evolução da inteligência artificial generativa transformou radicalmente a rotina das agências de comunicação e dos departamentos de relações públicas em todo o mundo. De acordo com o relatório global State of AI in PR, desenvolvido pela plataforma Muck Rack, cerca de 76% dos profissionais de relações públicas (PR) e assessoria de imprensa já utilizam ferramentas de inteligência artificial em suas atividades diárias.
O estudo aponta que a automação de determinadas tarefas, como escrever um press release ou fazer o clipping de notícias, gera uma economia média de 6,2 horas semanais por profissional. Essa liberação de tempo operacional vem acelerando uma mudança estrutural no mercado global, fazendo com que o profissional de comunicação se capacite para assumir em definitivo o papel de conselheiro estratégico das empresas que atende.
Essa transição do perfil técnico para o consultivo reflete debates das maiores entidades de comunicação do planeta. Em painéis promovidos pela Arthur W. Page Society , associação global de executivos de comunicação, são discutidos os impactos da perda de controle sobre os canais tradicionais de mídia e a necessidade de profissionais capazes de gerenciar o diálogo e a confiança no ambiente digital.
Da mesma forma, análises publicadas pela ADWEEK em parceria com a consultoria Burson destacam a ascensão do comunicador como um "assessor estratégico" essencial dentro do comitê de tomada de decisões das grandes marcas corporativas, uma vez que algoritmos carecem de sensibilidade política, ética e contextual para prever crises reputacionais complexas.
No cenário nacional, esse movimento exige rigor crítico para diferenciar a eficiência tecnológica da mera negligência profissional. Conforme alerta a jornalista e palestrante especialista em comunicação corporativa Heloísa Paiva, idealizadora da palestra O Patrimônio Invisível das Empresas, delegar a redação final integralmente aos algoritmos desvaloriza todo o diagnóstico feito com o cliente. “Não faz sentido nos reunirmos com a diretoria, estudarmos o mercado e compreendermos as dores profundas da marca para, no final, ver profissionais terceirizando a escrita inteira para um robô. Isso é preguiça profissional", pontua.
Para a especialista, que está à frente da agência Press Página há 25 anos, o processo deve ser de parceria: a tecnologia fornece dados atualizados, mas é o conhecimento humano aplicado que molda a estratégia. “É exatamente essa leitura profunda e o olhar personalizado sobre as fraquezas internas da empresa que diferenciam o assessor consultivo da máquina, tornando-o o único profissional capaz de desenhar uma governança de imagem eficiente”.
O impacto financeiro dessa mudança consultiva é mensurável e afeta diretamente o valor das companhias no mercado. Dados históricos da consultoria financeira Ocean Tomo demonstram que os ativos intangíveis, categoria que engloba a reputação e a propriedade intelectual, respondem atualmente por mais de 90% do valor de mercado das empresas listadas no índice S&P 500.
Diante de um ecossistema digital em que mentiras automatizadas e deepfakes se propagam em alta velocidade, o monitoramento de riscos tornou-se uma prioridade financeira. O relatório global da Weber Shandwick, publicado em 2020, complementa esse panorama ao revelar que executivos de diversos países atribuem mais de 60% do valor de suas organizações exclusivamente à força da reputação corporativa. O dado reforça a necessidade de assessores que atuem na governança preventiva e na proteção desse patrimônio invisível, muito além do envio de notícias.